O que eu aprendi viajando de carro

Hoje li um texto maravilhoso, um relato emocionante de quem já viajou sozinho por milhares de quilômetros com a sua moto. Os textos que mais mexem com a gente são aqueles que nos identificamos de alguma forma. E como eu me identifiquei!

Nunca viajei sozinha guiando uma moto por milhares de quilômetros tendo que lidar com meus próprios pensamentos, mas já viajei tanto de carro que aprendi que o caminho é muito mais importante do que o destino.

Eu tive a sorte de ter um pai que ama dirigir, que permitiu que eu e meus irmãos conhecêssemos boa parte do nosso país e um pouco da América do Sul.

Desde pequena, conhecendo meu país

Começamos a fazer longas viagens organizadas por uma empresa chamada Trailway, onde o dono, Luis Carquejo, ia sozinho pro destino desejado para traçar um caminho, pesquisar as possibilidades e conhecer novas rotas a fim de criar um roteiro e vender a viagem. Viajamos pro Pantanal norte e sul, Bonito, sul do Brasil, Buenos Aires, Chapada dos Guimarães, Deserto do Atacama e Bolívia, Lençóis Maranhenses, Serra da Bocaina, Serra da Canastra e outras viagens menores com ele… Sem falar nas viagens que meu pai fez sozinho com a nossa família: Chapada dos Veadeiros e Diamantina, Arraial D’Ajuda e Trancoso, Itacaré, Jericoacoara, enfim. Foi muita terra percorrida de carro por essa América maravilhosa. Viajar sempre foi uma prioridade, desde que me conheço por gente. Agradeço muito por ter tido essas oportunidades na vida.

Mesmo nos destinos que íamos de avião, dávamos um jeito de fazer passeios de carro, muitas trilhas e estar sempre em movimento, claro.

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A arte de extrair o máximo do caminho

Enquanto algumas pessoas suam frio ao pensar em ficar três horinhas dentro do carro, eu estou acostumada a ficar das 7h da manhã às 23h dentro do carro. A maioria das pessoas, quando viajam de carro, preferem pegar o caminho mais rápido, a melhor estrada, para acelerar sem nem olhar pro lado. Afinal, tem que chegar logo no destino, né? Nessas viagens, o organizador fazia exatamente o contrário. Ele pesquisava onde tinham trilhas possíveis ou impossíveis de fazer pra poder pular fora da estrada e andar pela terra, desvendando matos e florestas.

No Pantanal, por exemplo, íamos por dentro de fazendas, era um abre e fecha de porteiras sem fim, o primeiro do comboio abria e o último fechava. Lembro que na viagem pro Extremo Sul do Brasil pegamos uma estrada chamada “Estrada do Inferno”, acho que nessa viagem estávamos em uns 12 carros, aproximadamente, todos Land Rovers ou parecidos, preparados pra grandes desafios, mas todos, sem exceção, atolaram no caminho. Na estrada, tinham dezenas de caminhões atolados, cada viagem era uma aventura, o caminho acabava sendo muito mais divertido e interessante do que o destino final. 

O equilíbrio

É claro que nesses caminhos acabávamos parando em destinos “turísticos”, fazíamos alguns passeios sem os carros, mas as viagens eram basicamente dentro do carro, fazendo trilha e olhando pela janela. Acho que por isso que me acostumei a não dormir no carro.

Em caminhos muito longos, como uma reta de 600km na Argentina, fazíamos brincadeiras via rádio. Falar nomes de frutas, de carros… Era a forma que os adultos encontravam de interagir entre todos, se divertir e se distrair. E nós, crianças, adorávamos!

Eu tenho três irmãos mais novos. Agora imagine 6 pessoas dentro de um carro viajando por centenas de quilômetros em um só dia. Íamos um em cima do outro, pernas por cima das malas e braços por baixo de outras. A gente ria, fazia vídeos e tirava fotos, cantávamos e dançávamos, brigávamos, nos irritávamos, mas nos amávamos. Sem dúvida era nesses momentos onde nos sentíamos mais unidos como família e irmãos.

Sem frescuras

É claro que na maioria dessas viagens nós tínhamos conforto e cama pra dormir, mas não tínhamos luxo. Se precisasse fazer xixi ou cocô no meio do caminho, a grande chance era de precisar ser no mato ou em banheiros duvidosos. Muitas vezes não tínhamos refeições muito boas, pela falta de opção ou por não termos tempo pra parar. Comíamos muitos lanches e dependendo do lugar, como aconteceu na Bolívia, mal tínhamos o que comer. Lá era tudo muito precário e a única coisa “comível” era sopa. Quando fomos pro Salar de Uyuni foram dois dias de sopa (que mais parecia água quente) e uma noite dormindo em um “hotel” que o quarto até fedia.

Era muito comum algumas pessoas ficarem doentes, devido a uma virose ou intoxicação alimentar… E quando era um grande número de pessoas, acabava derrubando muita gente ao mesmo tempo. Mas a viagem não podia parar!
Depois da estrada do inferno perdemos a balsa e precisamos dormir em uma mini cidade em um “hotel” muito ruim, passando frio a noite e sem tomar banho. É claro que tudo isso não é nada quando estamos viajando… Mas tinha muita gente que não aguentava viajar assim e nunca mais voltava. Mas uma criança, crescendo nesse mundo e aprendendo que tá tudo bem passar um perrengue, com certeza terá muito menos dificuldades de lidar com uma situação parecida ou pior no futuro. Além de conseguir encontrar formas mais baratas de viajar sem problema algum.

Dar valor pro percurso

Hoje em dia eu prefiro viajar de carro do que de avião, se eu tenho a oportunidade de fazer isso, eu faço. Mesmo que a viagem seja mais cansativa e demorada, vale muito mais a pena. Conhecer todo o caminho, ir parando em diversos destinos ao invés de ir apenas para um, dormir uma noite em cada cidade ao invés de passar uma semana no mesmo local. Eu sinto essa ansiedade de fazer isso toda vez que começo a planejar uma viagem. Pesquiso todos os lugares possíveis de onde vou, traço uma rota que dê pra passar em todos, mesmo que por pouco tempo. A vontade de conhecer e explorar grita dentro de mim. Pra que perder tempo em um só lugar se existem tantos pra conhecer? Pode ser que eu só tenha a oportunidade de passar aqui uma vez na vida, quero que meus olhos vejam tudo o que der.

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Lembro que quando fui pra Paraty de carro, que contei aqui, fiz um excel com um planejamento do que faríamos na manhã, tarde e noite. Tinha tudo traçado, não podíamos acordar tarde, nem ficar muito tempo no mesmo lugar. Nunca me arrependo, é tão bom conhecer e se maravilhar com esse mundo!

Eu espero poder passar essas experiências pros meus filhos, levá-los pra conhecer o máximo de lugares possível. Aprendi com meus pais, que mesmo que o trabalho esteja difícil, mesmo que se tenha muito pra fazer, é preciso parar. Eles têm uma empresa própria pra cuidar, 4 filhos pra conviver e ensinar, sempre priorizaram um tempinho de todos os anos para ficar conosco, pra viajar, conhecer e se divertir. Obrigada, pai e mãe! Vocês me ensinaram muito e espero poder ensinar o mesmo para os meus filhotes.

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