Não existem subempregos

Mais um texto que eu escrevo depois de ouvir alguém falar e me inspirar. Esse alguém se chama Verônica, dona do Faxina Boa.

Pra falar a verdade, eu já tinha escrito um texto há um tempo: “Todos deveriam trabalhar servindo os outros uma vez na vida”. Mas não cheguei a postar e acho que esse vai fazer muito mais sentido depois de ouvir as palavras dessa mulher maravilhosa.

Quando eu decidi vir morar em Portugal já estava um pouco cansada do clima de agência e não via a hora de trabalhar com algo diferente, que eu não precisasse “pensar no dia de amanhã“. Estava realmente animada com a ideia de servir mesas, cozinhar, organizar coisas, falar com pessoas, o que desse na telha! E eu não imaginava o quanto isso me ensinaria e ajudaria…

Sempre que conhecidos meus ou até pessoas que eu só conhecia pela internet iam morar fora e conseguiam um emprego como garçonete, vendedora, faxineira, pedreiro e mil outros empregos, todos se referiam a isso como “subempregos”. E eu sempre me senti mal falando isso, porque estes são subempregos? As pessoas que trabalham com isso não são inferiores do que ninguém que trabalha em um escritório. Se eu sirvo mesas e você é um advogado não quer dizer que eu sei menos do que você, estudei menos do que você. Inclusive, no primeiro restaurante que trabalhei conheci um advogado que largou os salários volumosos e o stress diário pela bandeja e o dia a dia maluco dos restaurantes. E ele nunca esteve tão feliz! Trabalhei com pessoas que falavam três, quatro, cinco línguas… Pessoas que eram felizes fazendo aquilo e não se imaginavam fazendo outra coisa. Foi trabalhando nos restaurantes que eu fiz as maiores amizades que tenho hoje em dia em Lisboa.

A Verônica falou algumas coisas que me marcaram muito:

  • As pessoas assumem que você é burra porque você trabalha com serviço doméstico (no caso, com qualquer “subemprego”).
  • Não existe subemprego a partir do momento que você está fazendo algo que outra pessoa não consegue fazer – seja por não saber, não querer, não ter tempo ou não gostar. Se um cara dirige um ônibus e você precisa pegar o ônibus todos os dias, você NÃO PODE e NÃO DEVE achar que ele é inferior a você. Você precisa dele. Alguém tem que fazer aquilo.
  • Um emprego não é melhor que o outro, somos todos (ou quase todos) prestadores de serviço. Todos nós trabalhamos pra alguém.

É incrível o que a Verônica está fazendo, a força que ela está dando para outras pessoas que encontram-se na mesma situação que ela. Eu já me senti discriminada por estar servindo mesas, as pessoas realmente se acham melhores do que você. E o pior é que: eu também já devo ter sido essa pessoa. 

Quando estamos do outro lado, ou seja, indo comer em um restaurante, esperando na fila pra pegar uma mesa, aguardando impaciente por um prato que nunca chega… Parece que esquecemos que quem está nos atendendo e servindo também são pessoas. Carne e osso. Igual a você. Inclusive, podia ser você ali. 

Assim como no seu emprego de escritório, todos nós temos dificuldades, evoluções, conquistas e aprendizados. Quem se acha superior e não respeita quem trabalha com essas coisas não sabe que na verdade esses empregos não são nada fáceis. É preciso muito jogo de cintura, força, paciência, preparação, memória, agilidade… É bem cansativo.

Trabalhei em dois restaurantes que praticamente não paravam um segundo, não é fácil estar a par de tudo que está acontecendo, lembrar de todos os pratos, lidar com pessoas estúpidas e manter um sorriso no rosto, ficar em pé o dia inteiro, abrir ou fechar o restaurante, manter o espaço limpo, carregar cinco pratos de uma vez, falar várias línguas, se virar em uma que você não é fluente. Não é fácil. E a gente está ali pra servir alguém. O mínimo que esse alguém deve fazer é respeitar o próximo.

Todos deveriam trabalhar servindo os outros uma vez na vida.

Você aprende a ser mais humilde.

Você entende o valor de um bom serviço.

Você aprende a ser grato e a ouvir.

Uma vez, duas meninas foram ao restaurante que trabalhei e quando chegaram os pratos, o ravioli estava com o interior frio e a outra massa, meio dura. Elas pediram pra voltar, fui super simpática, é claro honey, pedi desculpas, depois conversei com elas, tudo normal como eu sempre fazia. No final, elas chamaram a gerente e elogiaram o serviço, falou que em Portugal foi a primeira vez que ficaram felizes com isso e nem lembrou que a comida estava ruim.

Se você for em um restaurante e a comida for boa, mas o serviço muito ruim, você voltaria? Eu não. Mas se a comida for ok e o serviço espetacular, é provável que eu volte. Relações, sorrisos e simpatia marcam. Um serviço diferenciado marca.

Hoje em dia eu não trabalho mais em restaurante, mas sinto falta.

Da rotina, das pessoas, da correria. Não nego que é muito mais excitante do que ficar sentada o dia inteiro na frente de um computador. Você fala o dia inteiro, você treina outras línguas, você se exercita, você dá risada, você se desdobra, você aprende a lidar com os mais diferentes tipos de pessoas. Tenho certeza que ainda trabalharei com isso novamente.

E agora eu me despeço com esse sorrisão dessa mulher inspiradora.

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