Encarando o luto

08/11

Um dia após o outro. Respirar.

Acredito que seja a primeira vez que estou vivendo o luto de verdade. O luto que dói o tempo todo.

Meu irmão foi embora desse plano com 29 anos de um dia pro outro. Meus pais perderam um filho. Eu e meus irmãos perdemos um irmão. Meus avós perderam um neto. Meus tios e tias perderam um sobrinho. Não é a “forma natural” das coisas acontecerem. Ninguém estava se preparando pra isso.

Eu estou grávida de 9 meses. Meu filho vai nascer quase na mesma semana que meu irmão se foi. No momento que recebi a notícia, para além da ficha não cair e eu não querer acreditar o que estava acontecendo, veio o medo de acontecer algo com o serzinho na minha barriga. O corpo responde. Muitas contrações. Não sabia o quê e como sentir.

Uma negação misturada com “preciso ser forte por ele e pelos meus pais”. E por mim também, na verdade. O medo de sentir. O medo daquilo ser realmente verdade.

E era.

Raiva, revolta, indignação. Não queríamos acreditar. Isso não estava acontecendo com a nossa família. A gente nunca acha que vai acontecer. Muito menos da forma como aconteceu.

O primeiro dia foi um sentimento de confusão, de má digestão. De tristeza profunda. Parecia que o coração batia e parava ao mesmo tempo, o bebê não parou quieto aqui dentro. Um vazio no olhar. Faltavam palavras.

Uma busca insaciável para encontrar razões para o inexplicável. Os pensamentos invasivos não paravam. As lágrimas vinham sem consultar. Mas a união da nossa família à noite deu um pingo de esperança à todos. A chegada de um novo pequeno membro na família uma luz no fim do túnel, outro foco para o momento. As palavras e desabafos de todos dando força um ao outro mostrando que não estávamos sozinhos.

Mas a dor imensa continua igual, acordar no dia seguinte e ver que tudo não era apenas um pesadelo foi como acordar já caindo de um precipício.

E seguimos mais unidos do que nunca.

Passando o dia juntos, conversando, falando dele, lembrando de momentos, das piadinhas sem graça dele, querendo dar algum sorriso ao focar em tudo de bom que vivemos com ele. Vem a culpa. Será que era pra eu estar sorrindo? Sim, é o que ele ia querer.

A verdade é que ao pensar nele não tem como não sorrir. Como escrevi há alguns dias: “a vida pode parecer injusta agora, mas ela foi tão justa em nos permitir viver 29 anos ao seu lado”. Parece impossível agora, mas é nisso que vamos focar. É isso que você gostaria que a gente pensasse.

Tem hora que isso parece impossível, se paramos pra racionalizar, vem só a dor. Mas ao acreditarmos em algo maior do que nós, ao acreditarmos que ele cumpriu o que veio fazer nesse plano, que espalhou o tanto de amor que espalhou, inspirou o tanto de gente que passou na vida dele… Começa a ficar um pouco menos difícil.

Ao pensarmos que ele pode não estar aqui fisicamente, mas que ele está dentro de todos nós e viverá assim para sempre, o coração fica um pouco menos machucado. É a única forma de nos motivarmos a continuar.

18/11

Escrever é a forma que encontro de colocar o que estou sentindo pra fora, e muitas vezes venho aqui despejar palavras que precisam sair de dentro, mas deixo. Não termino, nem publico. Aí venho, releio, e adiciono o que faz sentido. Escrevo porque sempre tem alguém passando por algo parecido.

Quando eu disse que temos que confiar que algo maior do que nós existe, que ele está em outro plano olhando por nós, eu sei que estava certa. Minha família está, a gente confia.

Afinal o bebê na minha barriga nasceu. E no dia da internação me colocaram no quarto 1309, no meio de mais de 20 andares, em um andar que nem era pra estarmos, quarto 1309, a data de nascimento do meu irmão. A mensagem de “vai dar tudo certo” que eu precisava naquele dia. Que todos precisávamos.

Meu filho nasceu com um anjo da guarda ao lado dele.

Hoje ainda só é difícil pensar em tudo, eu ainda tento esquivar de muitos pensamentos por estar lidando com muita coisa ao mesmo tempo, com medo de viver uma dor muito grande, mas são as memórias incríveis que tenho, minha família e esses sinais do além que dão força e calma pra viver um dia de cada vez.

Ele nunca vai deixar de existir, não enquanto a gente existir.


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