Um ser crescendo dentro de mim

Como contei aqui, fiquei grávida sem ter planejado. Não que a ficha caia rápido mesmo pra quem planejou e muitas vezes tentou por muito tempo, mas acho que a minha nem caiu ainda. Eu ainda acho louco pensar que estou formando uma pessoa na minha barriga e é difícil pensar que em alguns meses terei um bebê nos meus braços e não há o que eu faça. Estou em contagem regressiva agora.

Apesar de não ter planejado, a maternidade sempre foi um sonho pra mim. Mas não um sonho “romantizado”, onde gestar era o que eu mais queria, mas a constituição de uma família. Eu venho de família grande e sempre quis isso pro meu futuro. E, se meu corpo e a vida me permitisse, gestar estaria no caminho disso.

No meu primeiro trimestre, que graças à deusa, foi muito tranquilo, eu esquecia frequentemente que estava grávida. Estava fazendo algo em casa e lembrava: “eita, estou grávida”. Não sentia meu corpo mudando muito, não via a barriga crescendo… Será que ele está mesmo aqui?

Era no ultrassom que eu via que realmente tinha um ser crescendo lá dentro e me emocionava. Um ser que mesmo com 5 centímetros, já tinha cabeça, corpo, braços e pernas. Mas além desse momento, eu não sentia nenhuma conexão mágica. E nem esperava sentir, eu acho.

Eu conversava com ele, fazia afirmações, porque existe muita insegurança e medo no primeiro trimestre, incerteza se tudo dará certo. Já tinha um diálogo, uma conexão, mas acho que era mais eu querendo sentir que estava tudo bem, fazendo afirmações pra mim mesma. Quando passei das 13 semanas, uma calma se instaurou.

O segundo trimestre começou tranquilo, mas não está sendo fácil. Ando com muitos incômodos por causa de gases/ indigestão e dificuldade para dormir por conta disso. A barriga está crescendo, sinto ele mexendo dentro de mim, mas ainda não sinto nada mágico. E nem sei se vou sentir. E tá tudo bem.

Eu sempre me interessei por conteúdo de maternidade e acabei assistindo ou lendo relatos de mães que tiveram gestações difíceis. Nos últimos anos, cada vez mais, se tem falado sobre isso, a não-romantização da maternidade, o que eu acho necessário. E hoje vejo o quanto isso me ajuda diariamente.

Eu me considero uma pessoa bem resolvida com o que sou e sinto, mas vendo algumas grávidas falando dessa fase de uma forma tão linda, romântica e como um sonho realizado, é difícil não sentir um pinguinho de culpa por não estar sentindo o mesmo.

Eu sei que amo – ou talvez que vou amar – esse serzinho dentro de mim – teve uma vez no primeiro trimestre, que após uma relação sexual tive um pequeno sangramento, e fiquei desesperada, chorei e vi o quanto queria esse bebê – mas acho que uma coisa não tem a ver com a outra, querer muito e sentir tudo lindo.

Não me sinto melhor do que me sentia quando não estava grávida. Pelo contrário, me sinto muito pior. Meu corpo não está como eu queria, estão acontecendo coisas estranhas, tenho dores, não durmo direito. Se eu falasse que acho que estar grávida é maravilhoso e mágico, estaria mentindo.

Calma, é maravilhoso e mágico. O que nosso corpo consegue fazer é maravilhoso e mágico. Mas o que eu sinto no dia a dia não é.

Outro dia fiz um post falando sobre isso que tenho sentido, e muitas mães vieram falar sobre o que sentiram, como também foi difícil pra elas. A importância de falarmos a verdade e darmos força uma à outra. Pouquíssimas vieram com o papo de “você vai sentir falta”. Não, não vou.

Pode ser que isso mude, que quando a minha barriga estiver gigante e eu a olhe e veja o formato do pézinho dele se mexendo, eu me sinta nas nuvens. Mas eu acredito que a conexão vai ser construída mesmo com o bebê que nascer. Com o dia a dia, com a pele na pele, com o olhar…

A verdade é que cada uma tem uma experiência diferente. E tá tudo bem. Só é de extrema importância respeitarmos a experiência alheia e não compará-la com a nossa. Não achar que a pessoa está sendo mais ou menos por estar se sentindo diferente. Não desvalorizar uma mulher porque ela não está super grata por tudo, sem ignorar o que ela de fato está sentindo.

A gente pode ser grata e não gostar de estar grávida. Uma coisa não anula a outra. Afinal, tem um ser crescendo dentro da minha barriga, sugando a minha energia e esmagando meus órgãos. Falando assim, a realidade não é tão bonita. E é a verdade, é o que sinto diariamente.

Sou grata, mas é difícil.


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