Amizades, sem querer, tóxicas

É um texto difícil de escrever, porque estou em um momento de limpeza e reavaliação de muitas conexões e amizades que fiz nos últimos anos morando longe, mas um texto necessário. (Literalmente saí do bar depois de me irritar com as atitudes de uma pessoa e vim escrever.)

Não é algo sempre fácil de reparar, mas muitas amizades com pessoas que você, de fato, ama, acabam sendo tóxicas. Não é porque a sua amiga é má pessoa, porque ela te deseja o mal ou te trata mal, mas ela demanda muita energia sem “dar em troca”.

É claro que em qualquer relação genuína fazemos pelo outro sem esperar nada em troca, o que é uma filosofia muito bonita na teoria, mas, depois de um tempo apenas doando, acabamos nos esgotamos.

Hoje depois da minha sessão de terapia, inclusive, a minha psicóloga me passou a seguinte frase: “Isso de amar sem esperar nada em troca, é bonito nos contos de fadas. Mas na vida real, um amor maduro exige um delicado equilíbrio entre dar e receber, pois tudo aquilo que não é mútuo, é tóxico.” Bert Helinger

E esse é um desafio muito maior para as pessoas que têm o espírito de salvadora e quer ajudar todo mundo. Ou àquelas que têm medo de decepcionar os outros e querem agradar à todos por medo de ficar sozinha.

Eu observei recentemente esse esgotamento ao me ver reativa à certas coisas que alguém estava fazendo e, depois de desabafar com outros amigos, observei que eu estava doando e aceitando muito sem receber nada em troca e me vi cansada e irritada.

Será que a minha amiga é tóxica?

Essas situações podem ser quase óbvias, quando, por exemplo, a pessoa é claramente folgada com você, pedindo ajuda pra tudo e não te ajudando em nada; quando ela não está disponível da mesma forma que você (sempre despejando problemas em você e nunca querendo saber dos seus); está sempre se comparando com você e querendo sair por cima; se ela te coloca pra baixo. Enfim, são infinitas situações.

Mas essas amizades também podem ser tóxicas de formas mais sutis. O outro pode estar em um momento de vida diferente do seu. E acompanhar “os dramas” e o ritmo da pessoa pode não estar sendo benéfico para você.

Sabe quando você se sente cansada só de conversar com aquela pessoa? São sempre os mesmos papos, os mesmos problemas que você não aguenta mais ouvir ou até dar conselhos. Não é sua responsabilidade ajudar quem não quer ser ajudado, você não precisa estar com quem só fala em problemas se isso te faz mal de alguma forma.

Por isso é tão importante ouvirmos o nosso corpo – fazer o exercício de se observar. O que você sente ao estar com aquela pessoa? O que os comentários dela geram dentro de você? Você realmente queria fazer aquele programa com ela ou ter a ajudado naquilo?

Outra frase que a minha psicóloga falou que me impactou e que nunca vou esquecer: tem pessoas que não querem se relacionar com a nossa essência, mas com o que temos para dar, com o que ela pode tirar de nós.

Me encontrei em situações assim com mais frequência nos últimos anos por ter saído do Brasil. Quando você muda de cidade ou país você acaba desenvolvendo amizades que não são como as suas de infância ou de longa data, caso você tenha.

Pode até ser que sim, você faça grandes amizades, mas a grande maioria das pessoas que, em casa tem amizades sólidas, não tem as mesmas amizades ao morar fora. Ou pelo menos é o que eu vejo por aí.

Por isso, acabamos nos apoiando em amizades por carência, dependência, interesse, solidão…

E tá tudo bem não termos estas grandes amizades por perto, mas não está tudo bem manter relações que não estão te fazendo bem.

E pode até ser que a mesma amiga que antes te cansava, caso você converse com ela e imponha limites, melhore.

Quando somos sinceros com nós mesmos, somos sinceros com os outros. E vice-versa.

Um simples “não” te dá liberdade.

Quem tem que ficar, ficará.

E se tiver que ir, pode até ser que doa, mas que vá.


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